Viver e estudar em diáspora: reflexão sobre uma trajetória na América Latina

Por: Senakpon Fabrice Fidèle Kpoholo[1]

“Ninguém sabe para onde a cabeça está conduzindo os pés”. Provérbio africano da etnia fon.

Palavras iniciais

A linguagem acadêmica não é a única que nos possibilita expressar e compartilhar todas as nossas aprendizagens. Justamente porque nem todas essas aprendizagens precisam passar por um processo de pesquisa acadêmica para acontecer. Elas simplesmente seguem o fluxo da vida.

É esse fluxo da vida que este texto – de cunho ensaístico – tenta esboçar partindo da minha experiência pessoal. Mais especificamente, a minha trajetória no Brasil e na América Latina, impulsionado pelo objetivo de realizar estudos universitários a nível de mestrado e doutorado. Por se tratar de uma experiência pessoal, escrevi na primeira pessoa do singular. Porém, essa escolha é apenas para materializar minha posição discursiva.

Reconheço de ante mão, a dificuldade que é de refletir sobre a própria prática, ou melhor, a própria trajetória.  Ainda que essa trajetória seja apenas um recorte. Mas, acredito que essa reflexão se faz importante e se impõe a cada sujeito em devir, a partir do momento em que nossas experiências proporcionam as aprendizagens que realizamos na vida.

Sendo assim, o texto que se segue destaca alguns momentos da minha vida. Minha partida para o Brasil para realizar estudos universitários aprofundados, os desafios ligados à integração – dependendo da cidade – e das aprendizagens que decorrem delas e da minha breve experiência em outro país da América Latina, isto é, Equador.

À medida que fui narrando os acontecimentos, fui desenvolvendo reflexões substanciais a partir dessas narrativas. Busco levar o leitor através de um caminho que o permita compreender a importância da trajetória de vida na realização dos objetivos – estudos universitários no caso específico – mas, a apreender também a força da comunidade nesse processo.

Estruturei o texto em quatro principais partes: o contexto da minha partida, os anos de estudos no rio de janeiro, os pontos de mudança nos anos de doutorado e por fim, a breve experiência equatoriana.

O contexto da minha partida

Os africanos, quando sonham em conhecer ou viajar para um país estrangeiro, pensam primeiro nos países europeus, nos Estados Unidos e no Canada. O destino específico dependerá do país de origem do africano em questão. É assim que alguém originário do Benin, da Costa do Marfim, do Togo, dos Camarões, etc., terá muito provavelmente como primeiro sonho de viagem, a França. Não é uma regra, mas, algo que acontece com muita frequência. Esse fato, creio eu, deve ser compreendido como consequência da hegemonia europeia ainda presente nos pensamentos e olhares de inúmeros jovens africanos. Aliás, a colonização ainda é muito recente e seus novos mecanismos de atuação bem contemporâneos.

Mas, como é que, nesse contexto, o jovem africano que sou, originário do Benin, tinha o Brasil como país de sonho? Mais especificamente, a cidade de Rio de janeiro. Para isso, preciso mergulhar na minha memória e enfatizar um evento que para mim tem uma importância capital na minha trajetória de vida até hoje.

Toda criança, adolescente africano tem sua turminha. Quer dizer, seu círculo de amizade com qual fica vinculado. Se estivéssemos em um contexto rural bem tradicional, seria uma associação de criança ou de adolescente. Uma waaldé[2] como bem ensinou Amadou Hampaté Bâ em seu livro Amkoullel, o menino fula.

Mas como éramos crianças da cidade, eu diria, a turminha do bairro. Durante as férias escolares, nossas atividades eram mais intensas. Começavam cedo e terminavam quando realmente já estivéssemos bem esgotados. Praticávamos várias brincadeiras e diversos jogos, cujo um dos favoritos era o futebol.

Um desses dias, depois de longas horas de futebol, brincávamos de cada um escolher uma cidade/país dos sonhos. Enquanto meus amigos escolhiam cidades e países do continente europeu e dos EUA, eu falei rio de janeiro. Meu sonho era a cidade carioca. Devo ter sido motivado pelas imagens de tv que eu assistia e pela minha ligação com o futebol, sendo um dos remotos torcedores africanos da seleção brasileira. Além disso, deve ter necessariamente a ver com as lições de história – mais especificamente os capítulos sobre o vergonhoso e desumano comércio triangular – cristalizadas na minha memória.

O fato é que, quando eu concluí a minha licenciatura e que resolvi aprofundar meus estudos a nível de mestrado fora do país, a opção que veio até mim, foi o Brasil.

Na verdade, eu estava preparando o processo para viajar para a França através do campus France. Foi durante essa fase que acabei descobrindo a existência de uma bolsa de estudos brasileira para cidadãos de país em desenvolvimento. Meu país fazia parte. Isso foi suficiente para me fazer desistir do processo do Campus France e de ressuscitar meu sonho de infância.

O processo de submissão, de provas e avaliações da bolsa brasileira duraram alguns meses. Me preparei o ano de 2011 todo e no último semestre, aconteceu a fase de seleção em si. Os resultados saíram no final do mesmo ano e viajei para o Brasil no início de março de 2012. Mais especificamente, do dia 7 ao dia 08 de março. Iniciei, então, meu curso de mestrado em educação na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) no dia 12 de março de 2012. Foi assim que o sonho de infância se tornou realidade.

Os anos de estudos no rio de janeiro

Entrar no mestrado não foi apenas o início de uma nova fase de estudos. Mas, antes de tudo, de um movimento de rompimento. Rompimento com a presença física da assistência e da autoridade familiar. Isso aos 23 anos de idade. Algo muito importante dentro da cultura africana. Vamos compreender um pouco mais fundo.

As culturas africanas não são centralizadas no indivíduo. Aguessy (1980, p.106) não salientava a existência de, “entre o indivíduo e o grupo, mil laços entretecidos que permanecem indestrutíveis?”. O que não anula em nenhum momento a autonomia do indivíduo. Para dar continuidade a compreensão da relação indivíduo-familia/comunidade, gostaria de partir de outro conceito africano: ubuntu.

Se tentarmos entender melhor essa questão a partir do conceito de ubuntu, a compreensão se complexifica, mas, se torna mais holística.

Apesar da palavra e da visão de mundo que a sustenta serem atribuídas aos povos bantos, é inegável, como elas são compartilhadas pelo resto dos povos africanos. A partir de autores como Mbayo Mbayo (2017), Ramose (2002), é possível se aproximar da compreensão da palavra ubuntu. Primeiramente no plano linguístico e depois pela visão de mundo que ela veicula.

Assim, a palavra é formada pelo prefixo “ubu” e pelo radical “ntu”. Enquanto o radical remete a tudo o que é e ainda pode ser, o prefixo introduz um movimento de relação entre o ser e seus outros. Isso necessita a passagem por outra palavra que é o “muntu” que pode ser compreendido como a pessoa humana.

“Ntu” é também a parcela de inteligência divina presente em cada “muntu”. Sendo que este nunca é definitivo e sempre em processo, ele está ligado a todos os outros seres. Desse jeito,

(…). O Ubuntu honra o indivíduo enquanto privilegia o vínculo entre as pessoas, ou seja, a comunidade. É um modelo de realização da unidade na diversidade, da qual são inseparáveis ​​as virtudes e os valores humanos como a generosidade, a hospitalidade, a amizade, a compaixão, a solidariedade, a ajuda mútua, a partilha. Em suaíli, pode ser relacionado ao verbo -buni «inventar, construir, juntar». Se a palavra não tem equivalente em francês, é definida como «a qualidade inerente a ser uma pessoa entre outras pessoas» e muitas vezes acompanha um provérbio que diz: «Eu sou o que sou por causa do que todos nós somos». Não traduzível diretamente, o Ubuntu expressa a consciência da relação entre o indivíduo e a comunidade. (…). (Mabayo Mbayo, 2017, p.78, Tradução livre).

Essa breve ênfase ao conceito ubuntu e a tentativa de sua compreensão enquanto pensamento e visão de mundo africano têm como finalidade ressaltar a importância do deslocamento que tive que fazer para iniciar meus estudos no Brasil.

O rompimento do qual estava falando não é a supressão dos laços com a minha comunidade de origem. Mas, um deslocamento territorial que acaba impactando a minha dinâmica de vida enquanto indivíduo ligado a uma comunidade histórico-culturalmente definido e sócio geograficamente situado.

A comunidade se mantém em mim pelos códigos culturais profundamente enraizados em meu ser. E é a partir desses códigos que me coloco em relação com o “novo mundo” em que eu entro e que inicio o processo de tessitura de uma dupla identidade. De acordo com o pensamento ubuntu que esbocei brevemente nos parágrafos anteriores, o “muntu” não seria um ser-sendo? Ou seja, um ser em devir através da sua relação com os outros seres? Se assim for, a pergunta que coloco agora é: como é que esse ser-sendo que sou, teceu seu processo de aprendizagem – estudos acadêmicos a nível de mestrado e doutorado – em um espaço-tempo alheio a sua origem? Como é que ele estabelece novas relações comunitárias?

Um laço de três fios

Para responder as perguntas levantadas na parte anterior, começo constatando que estar em uma cidade do tamanho do rio de janeiro é estar mergulhado em um espaço-tempo cujas lógicas de articulações são orientadas pelos modos de vida nos moldes ocidentais. Quer dizer, a relação entre as pessoas, entre elas e os lugares, e o enredamento desses lugares são caracterizados pelos modos ocidentais de enxergar e levar a vida. Sem generalizar, é claro. Esses modos de vida são diferentes da maneira como tinha me acostumado a viver em meu país de origem.

Como traços característicos da vida em cidade do tamanho do rio de janeiro, posso salientar por exemplo: a densidade dos fluxos urbanos, a complexidade e o tamanho das vias de transportes, a diversidade dos meios de transportes e a quantidade de gente que se movimenta através delas, os centros e monumentos de cultura – museus, cinemas, teatro, casas de shows, etc. – as infraestruturas e outros lugares de diversão, os sítios e monumentos turísticos, a imensidão das universidades, etc. Posso acrescentar também, a sensação de velocidade da vida e da fragilidade dos relacionamentos próprios aos grandes centros urbanos.

Tudo isso, obviamente desaponta e, em certa medida, assusta quem não for acostumado. Sobretudo se acrescentamos a insegurança presente nas ruas da cidade carioca. Não é à toa que me perdi literalmente nas ruas no meu primeiro dia de aula.

Com efeito, depois do meu primeiro dia de aula, peguei o ônibus que me levaria de volta para casa. O número da linha estava certo. Porém, eu confundi o nome do bairro. E foi assim que passei horas na rua sem poder reencontrar nem o bairro, e ainda menos a casa em que eu morava.

Em contraponto a esse panorama, tenho também que reconhecer a particularidade do meu programa de mestrado. Isto é o Proped[3]/UERJ. As diferentes linhas e grupos de pesquisas assumem uma postura científica que busca superar os postulados de uma ciência eurocêntrica. Tal postura pode ser percebido nos trabalhos de pesquisa dos eminentes docentes do programa, dos alunos, e se faz também presente nos encontros em salas de aulas. Aliás, não podia ser de outro jeito, a partir do momento em que, é comum ter alunos de várias regiões do Brasil, e também de distintas nacionalidades. Eu tinha colegas de Angola, da Guiné Bissau, da Espanha, da Argentina, de Mexico, etc. Eram sempre encontros marcados por uma pluralidade de olhar e perspectiva de mundo.

Esses dois elementos – contexto acadêmico, contexto urbano – e um terceiro que vou destacar logo a seguir formam o que chamo de laço de três fios. Sendo cada contexto um fio do laço. O terceiro elemento é a comunidade diaspórica. Ou seja, a inserção em um grupo de africanos que compartilham, praticamente, o mesmo motivo de presença no Brasil: os estudos.

Ressalto que entendo caminho aqui não como uma via reta, mas, como uma dinâmica cujos movimentos são orientados pelas forças da vida cotidiana.

Nesse contexto, enxergo meus estudos no Brasil não como unicamente o resultado de um processo universitário, mas, como a tessitura de um conjunto de saberes que impactam diretamente em meu processo de humanização. Um muntu, sendo através dos outros muntus. Vou tentar aprofundar melhor isso.

É claro que o primeiro objetivo da minha presença no Brasil eram os estudos. O que não é apenas uma tarefa individual. Mas, uma responsabilidade perante minha comunidade de origem. Mais especificamente, minha família – sempre no sentido mais amplo – e algumas pessoas próximas. A responsabilidade está no fato da comunidade enxergar e esperar o diploma como um acontecimento que, apesar de ser individual, marca a realização de toda a comunidade. No sentido em que, sem a forte base de ensinamento familiar e comunitária, provavelmente não seria possível alcançar um tal nível elevado de estudos acadêmicos. O título de mestre e/ou doutor representa, portanto, um bem comum e não um “troféu acadêmico” pessoal.

É nessa mesma lógica que devem ser apreendidos os estudos universitários. Não falarei aqui da natureza coletiva da pesquisa acadêmica, mas, destacarei o caráter comunitário das relações universitárias.

Estar em um programa de mestrado e/ou doutorado significa estar mergulhado em uma comunidade universitária. Isto é: o conjunto formado pelos docentes, pelos discentes e pelo corpo administrativo. Esse primeiro conjunto está em relação com outro conjunto maior. Quer dizer, com os outros programas, as outras faculdades, as outras unidades universitárias, formando um todo maior.

Nesse todo maior, relacionamentos vão sendo feitas e desfeitas. Outros duram anos ou a vida inteira, outros o tempo de uma disciplina. É nesse sentido que minha vida comunitária universitária se desenvolveu através das afinidades que construí com colegas, professores e outros alunos da universidade. Essas afinidades perpassaram as aulas, a realização dos trabalhos acadêmicos, as reuniões de grupo de pesquisa e os eventos acadêmicos internos e externos à universidade.

Se os estudos são o que me trouxeram para o Brasil, a minha vida não se limita a eles. Preciso continuar sendo pessoa. Outras atividades como conhecer a cidade, o país se possível, viver outros laços afetivos – inclusive relacionamentos amorosos – etc.

É justamente nesse sentido que a comunidade diaspórica encontra toda sua importância. Não para pensar necessariamente a partir do viés dos estudos pós-culturais, mas, para enfatizar a comunidade como força do indivíduo territorialmente deslocado, e como meio de continuidade da sua humanização.

Conforme destaquei anteriormente, é assustador viver em uma metrópole como Rio de janeiro. As linhas de fragmentações sociais podem ser imperceptíveis, mas, violentos por dentro. O racismo estrutural também tem sua sutileza. O tráfico de drogas e suas leis são implacáveis. O custo elevado de vida castiga sem pena.

Diante dessas condições, é preciso, de um lado, fazer boas escolhas de amizades e camaradagem, já que você nunca sabe até onde pode te levar essas ligações. Por outro lado, é preciso contar com pessoas com quais você compartilha da mesma visão de mundo, ou pelo menos, quase da mesma visão de mundo. É isso que, na minha condição de estrangeiro, me levou a fortalecer minhas relações com meus conterrâneos presentes em Rio de janeiro. Buscamos reproduzir, ainda que, com suas limitações, as redes de solidariedade e de partilha africanas. Isso ajudou a enfrentar juntos os desafios e desenvolver táticas de sobrevivências. Por exemplo: compartilhar a moradia, sair em grupo, enfrentar juntos os processos de regulamentação da estadia – renovação de vistos e outros documentos necessários a nossa permanência no Brasil –, discutir e aprender a lidar com as diferenças culturais às quais somos diariamente submetidos, etc.

Tudo isso leva a tecer outras aprendizagens. A do saber viver juntos em um contexto estrangeiro e ainda manter o foco sobre o objetivo. A minha leitura hoje é que, sem essa força comunitária, seria difícil encontrar o equilíbrio e a harmonia necessária para trilhar o caminho dos estudos em terras estrangeiras.

Os pontos de mudança nos anos de doutorado

Antes de iniciar o doutorado, retornei para o meu país durante alguns meses. Esse breve retorno para casa me mostrou que algo tinha mudado em mim. Foi o momento de tomar consciência da minha dupla identidade. Percebi que não era mais apenas eu na minha relação com a minha comunidade de origem, mas, eu na minha relação com as comunidades em que permaneci ao longo dos dois anos de vida no Brasil. Eu ampliei minha visão de mundo sobre certas questões e aprendi a contextualizar outras. Como diz Nelson Mandela, “não há nada como retornar para um lugar que permanece inalterado para descobrir as maneiras como você mesmo se transformou”. Tomar consciência dessa transformação me mostrou que eu precisava seguir caminhando. Eu estava com um gostinho de “quero estudar mais. Quero fazer um doutorado”. E esse gostinho me levou a retornar para o Brasil e realizar processos seletivos. O que me permitiu ingressar no doutorado em março de 2015 na Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF).

Quando iniciei o doutorado, eu já era alguém um poco acostumado com o Brasil. Porém, juiz de fora é outra cidade que se localiza no Estado de Minas gerais. E obviamente, não é uma cidade do tamanho de rio de janeiro. A sensação é de uma cidade menos veloz, menos caótico, menos violento e mais segura. Senti que reencontrei uma tranquilidade que me faltava. E é provavelmente por isso que minha vida mudou totalmente ao longo de quatro anos de estudos em Juiz de fora.

Eu comecei aprendendo a construir novos relacionamentos. Tanto no plano acadêmico quanto pessoal. Uma vez que já tinha entendido que as redes comunitárias são fortes aliadas para a sobrevivência em terras estrangeiras.

Após um primeiro ano complicado e caracterizado pelas greves, pela escassez de recurso financeiro – Eu não tive imediatamente uma bolsa de estudos e sobrevivi graças a solidariedade dos colegas e dos amigos – as coisas foram se encaminhando e melhorando. Os estudos evoluíram com uma relativa tranquilidade, a partir do momento em que eu já tinha toda a experiência da formação do mestrado. Tive até a oportunidade de ensinar como professor substituto no curso de graduação em pedagogia na minha faculdade. Além de colaborar com outras instituições públicas de ensino e de pesquisa.

O interessante é ver como novas questões começaram a emergir em mim durante o doutorado. Se minha pesquisa de mestrado focou no fracasso escolar em meu país de origem, a do doutorado mudou completamente. Devido às minhas experiências no Brasil e as questões ligadas ao povo afro-brasileiro com quais venho lidando cada vez mais, minha pesquisa de doutorado acabou focando o ensino de história e da cultura africana a partir do cinema africano.

A pergunta foi: como o cinema africano pode contribuir para o ensino da história africana e para a abordagem das culturas africanas em sala de aula?

O que eu ignorava, mesmo após ter encerrado o doutorado, era que essa temática – os estudos africanos – se tornaria ainda mais presente em minha vida. E melhor, mobilizaria meus esforços de pesquisa e de trabalho.

Na verdade, durante o último ano de doutorado, eu já tinha iniciado, ainda que, muito timidamente, um trabalho online voltado para o ensino de história e de cultura africana. Produzia vídeos que abordavam aspectos/práticas específicas relacionadas às culturas africanas.

Esse trabalho tomou uma proporção maior após a conclusão do doutorado. Tal acontecimento se deu a minha tomada de consciência de que, eu precisava ir além da pesquisa de doutorado e não deixar seus frutos apodrecerem. Quer dizer, engavetar o trabalho.

Os pequenos vídeos se tornaram aulas semanais mais cumpridas em que eu aprofundava as temáticas para os participantes – na maioria, professores do ensino básico brasileiro – nas questões africanas e afro-brasileiras. Ao longo do caminho, não eram apenas os meus alunos que mudavam, mas, eu também. Porque meus estudos diários me levaram a aprofundar mais meus conhecimentos acerca das mentiras históricas do pensamento hegemônico eurocêntrico e de todos os desastres que o paradigma que o sustenta causou no nosso mundo.

Comecei a tomar mais consciência da minha ancestralidade africana, da sua força, e sobretudo, da sua valiosa contribuição para a humanidade. Além disso, comecei a perceber a importância e a urgência de uma reconexão com a ancestralidade africana como alternativa para o retorno à harmonia e ao equilíbrio do nosso planeta, na sua ligação com o universo. Neste momento, essa roda de aprendizagem segue girando.

Outra grande fase de aprendizagem que aconteceu durante o doutorado foi a constituição de uma família. Com efeito, em meio ao meu terceiro ano de doutorado, meu relacionamento afetivo evoluiu tão profundamente que me casei. O primeiro filho chegou no final do mesmo ano, o segundo no final do ano seguinte. Ou seja, comecei o doutorado solteiro e terminei casado, e ainda com dois filhos.

Nesse contexto, as maiores aprendizagens aconteceram na vida pessoal enveredando por caminhos como: ser pai, ser esposo, trabalhar, etc. e tudo isso sem a presença de nenhum membro familiar.

Olhando para tudo isso neste momento, consigo perceber toda a força do Ubuntu que foi meu aliado ao longo do percurso. Como “ntu”, a parcela de inteligência divina seguiu me guiando e me fortalecendo. Como “muntu”, continuei sendo e vivendo na minha relação com outros muntus. Mesmo que os laços comunitários sejam multiterritoriais, elas sempre foram o que me manteve focado e continuam me mantendo.

A breve experiência equatoriana

Apesar da minha passagem em equador ter sido breve, ela merece ser abordada em algumas linhas.

Eu estava concluindo o doutorado quando passei no processo seletivo da Universidad Nacional de Educación de Ecuador (UNAE) para atuar como professor temporário. Foi difícil tomar a decisão de viajar para lá e assumir o cargo. Primeiro porque eu estava chegando ao fim de um ciclo de estudos. Meu corpo e minha mente estavam exaustos. Em segundo lugar, porque meus filhos ainda estavam muito pequenos.

Acabei decidindo viajar para Equador pensando na nova experiência que estaria adquirindo, na aquisição de um outro idioma e na possibilidade de continuar provendo o sustento da minha família. Eu já era acostumado com a vida no exterior, porém, eu estava angustiado de ter que recomeçar tudo de novo.

Consegui, ainda que bem dificilmente, arcar com os gastos da viagem até chegar no Equador e iniciar o trabalho.

Confesso que não foi exatamente como eu esperava. Inicialmente, eu estava maravilhado pela universidade, pela beleza do campus, pela diversidade de origem dos docentes e do corpo administrativo, pelo projeto político educativo da instituição, etc. Tive a oportunidade de conhecer pessoas incríveis entre meus colegas e de ter alunos maravilhosos, tanto equatorianos, quanto de outras nacionalidades da América do sul.

Porém, entre os desafios de ter que desenvolver meu trabalho em uma perspectiva nova, a tremenda burocracia que complicou ainda mais minha situação financeira, problemas familiares acontecendo no Brasil, não consegui dar seguimento ao meu trabalho na UNAE. Eu não detalharei aqui cada pormenor porque não é o objetivo. Mas, o importante é ressaltar que acabei regressando ao Brasil depois de dois meses e alguns dias de permanência no Equador.

No entanto, esse breve tempo tem me ensinado coisas valiosas. Como por exemplo, entrever certas diferenças e semelhanças em relação aos países da América latina. Tão bem no plano geográfico que sociocultural.

 A cidade de Cuenca em que permaneci tinha a mesma tranquilidade que a cidade de Juiz de fora. As micro variações do tempo ao longo do dia são quase as mesmas. A proximidade entre as pessoas, o respeito, sobretudo, no que remete à relação professor/alunos, as formas de solidariedade, o preparo e o consumo dos alimentos, a força da comunidade indígena, etc. são tantos aspectos a partir dos quais segui aprendendo.

A lição do conto

Ao invés de falar de considerações finais, prefiro pensar em algo que tem mais a ver comigo. Isto é, uma lição valiosa que decorre da contação de uma história. É o ponto de chegada de todo conto africano.

No momento em que escrevo este texto, estou a alguns dias de completar nove anos de vida fora do meu país. Claro, voltei com certa frequência para visitar a minha família, mas, são nove anos vivendo mais em terras alheias. Quase uma década.

O que tem me levado a aprender que qualquer que seja nosso objetivo inicial, ele não é a finalidade. Ainda que conseguimos atingir esse objetivo – estudos de mestrado e de doutorado no meu caso. A finalidade é a trajetória, ou melhor, a caminhada. Porque é através dela que continuamos sendo. É na trajetória que nos conectamos com outros seres, ainda que de diversos horizontes e trocamos algo com eles. Certamente, o melhor de nós mesmos. É na trajetória que nosso horizonte se expande para novas possibilidades. É também na trajetória que aprendemos a importância da vida comunitária e sua força em nos manter humano. E, por fim, é na trajetória que nossas aprendizagens se fazem e se refazem, com a particularidade de nunca serem exclusivamente individuais, mas, sempre com uma forte dose de coletividade.

Referências
AGUESSY, Honorat. Visões e percepções tradicionais. In SOW, Alpha I e al. Introdução à Cultura Africana. Lisboa: Edições 70, 1980, p. 95-136.
MANDELA, Nelson. Longa Caminhada até a liberdade. Rio de janeiro: Alta books, 2020.
MBAYO MBAYO, Joseph. Bumuntu ou la culture de l’excellence : les prolégomènes.  Louvain-la-Neuve : L’Harmattan, 2017.
RAMOSE, Mogobe B. A ética do Ubuntu.  In: COETZEE, Peter H.; ROUX, Abraham P.J. (eds). The African Philosophy Reader. New York: Routledge, 2002, p. 324-330, por Éder Carvalho Wen.


[1] Doutor em Educação pela Universidade Federal de Juiz de Fora (Brasil, 2019)), Mestre em Educação pela Universidade do Estado de Rio de Janeiro (brasil, 2014). Atualmente é docente e pesquisador livre na Axovi Educação desenvolvendo trabalhos nas temáticas de história e culturas africanas.
[2] Sobre esse tema, consultar Hampâté Bâ, Amadou. Amkoullel o menino fula. São Paulo: Palas Athena: Casa das Áfricas, 2003.
[3] Programa de pós graduação em educação da Universidade do Estado de Rio de Janeiro.

Un comentario en «Viver e estudar em diáspora: reflexão sobre uma trajetória na América Latina»

  1. Fabrice, amigo, eres un gran profesional y un ser humano excepcional.
    Tienes claridad de pensamiento cual lumbrera y la humildad que te caracteriza.
    Un abrazo fuerte desde Honduras!

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